Ethical fatigue: A degradação do capital das empresas (que não está no papel)

Ethical fatigue: A degradação do capital das empresas (que não está no papel)

Atualmente, há um tipo de desgaste silencioso que cresce dentro das empresas sem ser nomeado. Ele não aparece nos indicadores de bem-estar, nem nos formulários de avaliação psicológica e muito menos nas determinações de temas do planejamento estratégico. Mas ele está lá, afetando justamente quem tenta fazer o certo quando o ambiente não oferece as condições para isso.

É o chamado ethical fatigue, o esgotamento de quem tenta sustentar sozinho, os valores que a empresa só aplica no papel (e publica aos quatro ventos como triunfo de venda).

Nos últimos anos, o debate sobre saúde mental no trabalho avançou bastante, e novas regulações começaram a exigir das empresas um olhar mais atento sobre sobrecargas, assédio e ambientes tóxicos (vide a NR1 que mesmo sem preparo e estrutura já está em vigor no Brasil). Mas o curioso é que, mesmo com toda essa movimentação, ainda não se mapeia um dos fatores mais crônicos de adoecimento organizacional, que é a contradição entre o que se espera das pessoas e o que se permite nos bastidores (ou até se pede quando ninguém está olhando).

É bem comum que as empresas dizem valorizar a ética, mas são tolerantes com desvios se eles entregam resultado (pelo menos a curto prazo). Essas empresas, tem documentos muito bem-produzidos, onde dizem ser guiadas por princípios, mas não oferecem meios nem respaldo para quem tenta segui-los. No básico, elas cobram integridade, mas distribuem bônus e elogios para quem jogou fora todas as regras do jogo para entregar o resultado no final.

O resultado disso não tem gerado somente frustração nos corredores das empresas, mas começou a se estender e virou literalmente cansaço. Um cansaço profundo, que mistura impotência com culpa, e que muitas vezes é lido como “falta de resiliência”, quando, na verdade, é só lucidez profissional e conexão com suas crenças. A governança ambiental, social e corporativa (ESG) entra aqui como oportunidade, principalmente quando falamos de governança.

O tema aqui não vai auxiliar as empresas como um conjunto de documentos novos (o que tem acontecido na maior parte das organizações), mas como o ponto de amarração entre discurso e prática. Quando é bem estruturada, a agenda ESG ajuda a transformar valores em critérios de decisão nas empresas e ajuda a deixar claro o que é negociável e o que não é, principalmente através de uma governança que prioriza chegar aos resultados da organização com responsabilidade, ou seja, sem superar os limites de seus valores.

Em contrapartida, de forma indireta, ajuda a reduzir o custo emocional de quem tenta agir com integridade dentro de estruturas permissivas e inclusive a determinar quais são realmente os valores que a organização deseja usar como referência, ao invés de simplesmente colocar aqueles que são mais bonitos, mesmo que nunca aplicados. Porque sim, ética também adoece quando é exigida de quem não tem respaldo para praticá-la.

E enquanto esse tipo de cansaço continuar invisível, nenhuma política de saúde mental dará conta do recado, é muito menos, nenhuma agenda ESG irá parar de pé.

Governança é coisa séria, e desde que se torne uma medida que se baseia naquilo que se limita a ética, tende a ser a ferramenta da produtividade organizacional. Se é apenas um nome que foi colocado num papel bonito, para mais um procedimento que vai ser entregue na auditoria sem que ninguém realmente o torne útil, será mais um motivo para que as pessoas enxerguem que o discurso é um e a prática outra coisa.

Esse esgotamento é o que tem feito diversos profissionais repensarem a relação com o trabalho e assim, buscar lugares que mais se conectem com seus valores. O recurso humano é um dos mais estratégicos para os negócios e pouco a pouco, ele vem demonstrando o quanto pode causar impactos críticos às empresas que não o gerenciam bem, pois aquele que realmente sabe de seu potencial e da entrega que pode gerar, não quer mais passar os próximos anos de sua vida em um lugar que precisa se esgotar emocionalmente a cada decisão que toma. Ano após ano, as cartas mais fortes do baralho vão mudando de lado na mesa e assim, o funcionário começa também a ter seu poder de barganha, e as empresas que ainda acreditam que são detentoras de todo o poder de negociação, ficam com os profissionais que não encontraram mais nada, enquanto os mais preparados, buscam uma verdadeira conexão com aquilo que acreditam.

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